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Ensinando o Dharma

Aadil Palkhivala

Quando a alma penetra em um corpo, existe uma razão para que a faça. É esse propósito - a missão do espírito - que chamamos de nosso dharma individual e único, seja ele grandioso ou humilde.

Nosso dharma pessoal pode ser descoberto através das indagações, "Por que estou aqui? Qual o propósito de minha vida" Um dos grandes santos que já existiu na Índia, Ramakrishna, ficou conhecido por encorajar seus seguidores a responder essas questões. Sempre que alguém o visitava ele perguntava, "Quem é você?" E ao perguntar essa questão ele podia descobrir se o visitante havia identificado seu dharma.

Descobrir nosso dharma é o mais importante passo em nossa vida. Se nós não damos esse passo, então nossos esforços não estão direcionados aos propósitos do espírito. Mesmo que trabalhemos extremamente duro, acabaremos por nos sentir vazios, escalando a ladeira do sucesso para apenas descobrir que estávamos nos recostando na parede errada. Nós bloqueamos nossa própria liberdade se não temos claro nosso propósito de vida. Como direcionar esforços na vida, vindos do coração, se não sabemos em que direção seguir?

É importante manter em mente que cada fase da vida deve ter um diferente dharma. O dharma de um bebê é mamar, o de um adolescente estudar, e o dharma de um adulto pode ser encontrar o seu destino espiritual. Ainda assim, uma determinada fase da vida pode ter não só um, mas diversos dharmas. Você pode simultaneamente ser um professor de yoga, um pai ou mãe, e um ativista por um governo justo.

Talvez o meio mais direto de abordar essa questão seja perguntar-se freqüentemente, "Por que eu estou aqui? Qual o meu propósito? Qual a razão de minha existência? Por que meu espírito escolheu este corpo e o que ele quer vivenciar?"

Durante os primeiros meses em que você se fizer estas perguntas, poderá ser inundado por uma torrente de respostas. A verdadeira resposta emerge devagar na medida em que o tempo passa, assim como acontece em quase todo o processo de decisão. Ao procurar uma casa, você pode visitar uma, depois outra e pensar " Não, eu não quero esta ou aquela" - mas você precisa vê-las para descobrir que não as quer. Igualmente, no processo de descobrir o seu dharma, terá que explorar várias opções até que, por fim terá um forte e inabalável sentimento : "Este é o meu caminho. Isto é algo que eu preciso fazer."

Durante sua prática de yoga, existem outras questões que você pode levantar para auxiliar o processo de indagação . Pergunte-se "Se você tivesse todo o tempo,dinheiro e energia que desejasse, o que você faria?" ou então, "Se você estivesse morrendo, o que você desejaria estar fazendo que você não está nesse momento fazendo? Por que você não o está fazendo? Você está esperando por algum acontecimento catastrófico antes de começar a ouvir seu coração?"

Existem outras formas de se abrir para esse importante processo de autodescoberta. Inicie cada prática de yoga com um período de silêncio, permitindo que seu corpo e mente se tornem quietos. Isto lhe dá uma rara chance de se tornar introspectivo e receptivo aos recursos internos mais profundos. No começo de cada aula, eu freqüentemente peço a meus alunos que direcionem sua energia mental ao centro do coração de forma a poderem olhar para dentro de si mesmos, buscar o verdadeiro propósito de sua prática e se esforçar por descobrir a intenção por detrás de cada ação que eles tomem. Isto auxilia a devagar, mas com segurança a torná-los aptos a contactar com o espírito que habita cada um.

Ao longo da aula, lembre-se de mover a energia pélvica para cima em direção ao centro do coração, usando um gentil movimento de Mula bandha e uma forte contração do fundo do abdômen. Isto o auxiliará a usar a prática de asanas para estimular o centro do coração até que finalmente, em Savasana (postura do cadáver), você possa ir fundo em seu coração e descobrir suas razões internas para viver, agir e praticar. O centro do coração é onde vive o espírito e onde ele se conecta profundamente com o corpo físico. Se posicionar a partir do centro do coração ao longo de sua prática e lá permanecer, no final da prática o auxilia a descobrir o espírito e fortalecer, ao longo do tempo, o seu dharma.

Os asanas não devem ser praticados pelos asanas em si, mas pelo dharma. Quem realmente se importa se você pode abrir sua virilha ou não? É maravilhoso que exista o potencial para que isso seja feito e que ao abri-la nossa altura aumenta, mas onde é que isso entra no cenário maior? De que forma a prática de asanas endereça o propósito do espírito? Nossa prática de asanas deve servir aos nossos propósitos e não servir ao asana em si. Quando nós praticamos mais do que nosso dharma requer, nós apenas alimentamos nosso ego. Se meu dharma é ser um artista excepcional,praticar asanas por 18 horas é para o ego e não serve para mim. Por outro lado, quando praticamos para servir ao nosso dharma, nossa prática se imbui de sentimento - não é mais um constante esforço para satisfazer o ego do corpo, mas um chamado, nos alertando para que sejamos inteiramente nós mesmos.

Se você quiser receber as verdadeiras bênçãos que o yoga tem para oferecer não deve se fixar apenas nos asanas. Nossa responsabilidade é maior do que conhecer apenas a ação dos asanas. Nossa responsabilidade é cultivar o Ser Humano que nós somos. Os asanas são apenas iscas. As pessoas buscam no yoga uma maneira de entrar em forma e encontram um processo de evolução. Um praticante sente o verdadeiro impacto do yoga quando a prática muda sua vida por inteiro, não apenas seu corpo. Uma forma holística de praticar yoga integra as oito partes do ashtanga de Patanjali e incentiva-nos a explorar, descobrir e viver o próprio dharma.

O caminho do yoga é o caminho de revelar o dharma e nos tornar aptos a vivê-lo. O dharma dos professores de yoga é assistir o aluno nesse processo. Ao fazê-lo, nós auxiliamos nosso aluno a realizar sua individualidade, agir de acordo com o coração, e na medida em que continue nessa jornada, descobrir o propósito de sua alma.

 

Este artigo é parte adaptada do livro a ser editado chamado Teaching the Yamas e Nyamas de Aadil Palkhivala. De origem Indiana, vivendo nos Estados Unidos, Aadil é um professorer "sênior" de Iyengar Yoga.

 

 

O segredo do Prana

Dr. David Frawley (Vamadeva Shastri)

Tudo quanto existe nos três céus descansa sob o controle do Prana. Como a mãe à sua criança, oh Prana, nos protege dando-nos esplendor e sabedoria. Prashna Upanishad II.13

Para mudar alguma coisa é preciso alterar a energia que cria tal coisa. Este fato é uma realidade na prática de Yoga. Para realizar mudanças positivas no corpo e na mente precisamos entender a energia através da qual mente e corpo operam. Esta energia se chama Prana em sânscrito e significa energia primordial. É também por vezes traduzida como respiração ou força vital, apesar de ser mais do que isso.

Enquanto o assunto Prana é comum no pensamento do yogi e diferentes formas de Prana possam ser abordadas , o entendimento sobre o que é Prana e seus diferentes tipos é raramente visto em profundidade. Por essa razão toda a ciência sobre o Prana, que é vasta e profunda, é raramente compreendida. Neste artigo vamos abordar esse assunto vasto buscando expandir a compreensão sobre o Prana em todas as suas manifestações.
Existe uma antiga estória védica sobre o Prana que encontramos em várias Upanishads. As cinco principais atividades de nossa natureza - a mente, a respiração (prana), a fala, a audição, a visão - discutiam entre si sobre qual delas era a melhor e mais importante. Isso reflete o estado humano ordinário no qual nossas faculdades não estão integradas, mas lutam entre si, competindo para ver quem rege nossa atenção. Para resolver a disputa elas resolvem que cada uma deixaria o corpo para ver qual delas seria mais imprescindível.

A primeira a deixar o corpo foi a fala, mas o corpo continuou a pensar, mudo. Em seguida a visão deixou o corpo, mas ele, cego, continuava a pensar. Em seguida foi a vez da audição, mas o corpo pensava ainda, mesmo surdo. Então a mente se retirou, mas o corpo ainda assim pensava, inconscientemente.

Finalmente o Prana começou a deixar o corpo e então o corpo começou a morrer e todas as outras faculdades começaram a perder energia. Então correram todas para o Prana pedindo que ficasse, exaltando sua supremacia.

Claramente, o Prana venceu a questão. É o Prana que alimenta todas as outras faculdades, sem o qual não podem funcionar. Sem honrar devidamente o Prana, não há nada que possamos fazer e nada com o qual possamos fazer alguma coisa. A moral dessa estória é que a chave para controlar nossas faculdades, está em controlar o Prana.

O Prana tem muitos níveis de funcionamento, da respiração a consciência em si. Prana não é apenas a força vital básica, é a forma mestra de todas as energias operando no nível da mente, vida e corpo. Na verdade o universo inteiro é uma manifestação do prana, que é a o poder criativo original. Até mesmo a kundalini shakti, o poder serpentino que transforma a consciência se desenvolve a partir do Prana desperto.

Em um nível cósmico existem dois níveis básicos de Prana. O primeiro é o aspecto não manifesto que é a energia da consciência pura que transcende toda a criação. O segundo nível, do Prana manifesto é a força criativa em si. O Prana se manifesta a partir da qualidade (guna) de rajas, a força ativa da natureza (Prakriti). A natureza em si consiste de três gunas: sattva ou harmonia, a qual dá elevação a mente, rajas ou movimento, que torna o prana manifesto, e tamas ou inércia, que dá ascensão ao corpo.

Na verdade poderia se argumentar que a Prakriti ou a natureza é primariamente Prana ou rajas. A natureza é a energia ativa de Shakti. De acordo com a força de atração do self ou pura consciência (Purusha) essa energia se torna sattvica. Através da ignorância ou inércia essa energia se torna tamasica.

Entretanto mesmo o Purusha ou o self pode ser definido como o Prana não manifestado por ser uma forma de energia da consciência (Devatma Shakti). Do Prana não manifesto ou da consciência pura provém a manifestação criativa do Prana que vem a ser o universo como um todo.

Em relação a nossa existência física, o Prana ou energia vital é a modificação do elemento ar, primordialmente o oxigênio que respiramos e que nos permite viver. Assim como ar se origina no éter ou espaço o Prana surge no espaço e se mantém intimamente conectado a ele. Portanto onde quer que criemos espaço aí a energia do Prana se manifestará automaticamente.

No sistema yogi o elemento ar se relaciona ao sentido do tato. Num nível mais sutil o ar é tato. Através do tato nos sentimos vivos e podemos transmitir nossa energia vital aos outros. Assim como o ar surge no espaço, o tato surge do som, que é a qualidade que corresponde ao elemento éter. Através do som nós despertamos e sentimos ampliar-se nossas conexões com a vida como um todo. Num nível sutil o Prana surge das qualidades de som e tato que são inerentes a consciência. De fato o Prana tem seu próprio corpo ou camada de manifestação.

O ser humano consiste em 5 koshas ou camadas:

  1. Annamaysa kosha - alimento - físico - os 5 elementos
  2. Pranamaya kosha - respiração - os 5 pranas
  3. Manomaya kosha - impressões - mente externa - os 5 tipos de impressões sensoriais
  4. Vijnanamaya kosha - idéias - inteligência - atividade mental
  5. Anandamaya kosha - experiências - mente profunda - memória - mente subliminar superconsciente

Pranamaya Kosha:

O Pranamaya kosha é a esfera de nossa energia vital. Essa camada faz a mediação entre o corpo de um lado e as três camadas da mente (mente externa, inteligência e mente interna) de outro e tem uma ação em ambos os níveis.

É o kosha que faz a intermediação entre os cinco elementos e as cinco impressões sensoriais.

O melhor termo para definir o Pranamaya kosha é provavelmente "camada vital" ou "corpo vital", usando um termo do Yoga Integral de Sri Aurobindo. O Pranamaya kosha consiste na urgência vital pela sobrevivência, reprodução, movimento e auto-expressão, estando basicamente conectado aos cinco órgãos motores (excretor, urino-genital, pés, mãos e órgão vocal)

A maioria de nós é dominada pelas necessidades vitais do corpo e suas urgências mais arraigadas necessárias para a manutenção da vida. É também a morada do ego subconsciente que guarda medos diversos, desejos e apegos que nos afligem. Muitos de nós passam a vida buscando prazeres através da satisfação de desejos sensoriais e aquisição de objetos materiais.

Uma pessoa com uma forte natureza vital se torna proeminente e capaz de tornar sua personalidade marcante diante do mundo. Aqueles com uma vitalidade fraca tem poucas chances de conquistas na vida e usualmente se mantém em uma posição de subordinação. Geralmente pessoas com forte e egoística vitalidade gerenciam o mundo, enquanto os de fraca vitalidade os seguem. Tamanha vitalidade egoística é um dos grandes obstáculos no caminho espiritual.

Entretanto, um forte e vital pranamaya kosha é também importante no caminho espiritual, mas é muito diferente da vitalidade movida pelo desejo egoísta. É uma força orientada não pelo poder pessoal, mas pela capacidade de se render ao Divino e a sua grande energia. Sem uma grande vitalidade espiritual nós perdemos o poder de praticar sem cair nas influências do mundo. Na mitologia Hindu o Prana superior é simbolizado pelo Deus-macaco Hanuman, o filho do vento, que se rendeu ao Divino na forma de Sita-Rama, podendo se tornar pequeno ou grande conforme seu desejo, capaz de superar todos os inimigos e obstáculos e atingir o milagroso. Tal vitalidade tem energia, curiosidade e entusiasmo na vida, juntamente com um controle dos sentidos e urgências vitais, subordinando-os a um desejo e aspiração superiores.

Os cinco Pranas

O Pranamaya kosha se compões de cinco Pranas. O Prana essencial divide-se em cinco tipos de acordo com o seu movimento e direção. Esse é um importante aspecto na medicina Ayurvêdica e no pensamento yogi.

Prana

Prana, literalmente significa "o ar que se move para frente", movendo-se internamente e governando recepções de todos os tipos, do alimento ingerido,da água,da inalação do ar, da recepção das impressões sensoriais e experiências mentais. É uma força propulsara da natureza, colocando as coisas em movimento e as guiando. O Prana provê a energia básica que sustenta a vida.

Apana

Apana, literalmente "o ar que se move para fora" , movendo-se para baixo e para fora do corpo, governando todas as formas de eliminação e reprodução (que também se movimenta para baixo). Governa a eliminação de fezes e urina, ejaculação do sêmem, fluido menstrual e do feto, e a eliminação do dióxido de carbono através da respiração (exalação). Num nível mais profundo, também regula a eliminação de sentimentos, emoções e experiências mentais negativas. É a base de nossas funções imunológicas em todos os níveis.

Udana

Udana, literalmente significa "o ar que se move para cima", movendo-se para cima em movimentos qualitativos ou transformativos da energia da vida. Governa o crescimento do corpo, a habilidade de se manter em pé, falar, se esforçar, o entusiasmo e o desejo. É a principal força positiva na vida através da qual podemos desenvolver nosso corpo e evoluir em consciência.

Samana

Samana, literalmente "ar que se equilibra", se move da periferia para o centro através de uma ação que cria movimento e discernimento. É o que regula a digestão em todos os níveis. Atua no trato gastrintestinal para digestão dos alimentos, nos pulmões para absorção do ar ou oxigênio, e na mente digerindo e homogeneizando experiências, sejam sensoriais, emocionais ou mentais.

Vyana

Vyana, literalmente "o ar que se move para fora", movendo-se do centro para a periferia. Governa a circulação em todos os sentidos. Movimenta o alimento, água e oxigênio através do corpo, e mantém nossas emoções e pensamentos circulando na mente, fazendo uma ponte de comunicação dos movimentos internos e provendo resistência. Assim fazendo Vyana assiste todos os outros Pranas em suas funções.

Os cinco Pranas são energias e processos que ocorrem em diferentes níveis. Entretanto podemos localizá-los de diferentes formas:

  1. Prana Vayu governa o movimento de energia da cabeça ao umbigo, que é o centro prânico no corpo físico.
  2. Apana Vayu governa o movimento de energia do umbigo até o chakra da base (muladhara chakra).
  3. Samana Vayu governa o movimento de energia do corpo inteiro de volta ao umbigo.
  4. Vyana Vayu governa o movimento de energia a partir do umbigo através do corpo todo.
  5. Udana Vayu governa o movimento de energia do umbigo em direção à cabeça

Resumindo podemos afirmar que:

É quase como o funcionamento de uma máquina. O Prana traz o combustível, Samana converte o combustível em energia, Vyana faz o combustível circular em todas as partes da máquina. Udana governa a energia positiva criada nesse processo determinando o trabalho que a máquina está apta a realizar e Apana elimina o lixo proveniente desse processo de conversão.

A chave para a saúde e bem-estar está em manter nosso Prana em harmonia. Quando o Prana está em desequilíbrio, todos os outros tendem a se desequilibrar também, pois estão todos conectados, trabalhando juntos. Genericamente falando o Prana e Udana trabalham em oposição ao Apana como as forças de energização versus a de eliminação. Similarmente Vyana e Samana são forças opostas de expansão e contração

Como o Prana gera o corpo

Sem o Prana, o corpo físico não é mais do que um bocado de barro. É o Prana que esculpi essa massa gelatinosa tornando-a membros e órgãos do corpo. Isso se faz através da criação de diversos canais ou Nadis, através dos quais o Prana opera e energiza a matéria bruta em diversos tecidos e órgãos.

O Prana Vayu move-se da cabeça e cérebro em direção ao coração. Existem sete aberturas ou canais na cabeça, os dois olhos, os dois ouvidos, as duas narinas e a boca. Esses são chamados os sete Pranas ou sete Rishis no pensamento védico. Udana assiste o Prana criando os canais de energia na cabeça e pelo corpo todo. Poderia se dizer que todo o corpo físico é uma extensão da boca, que é o principal órgão de atividade física, capaz de se alimentar e auto-expressar.

Apana Vayu atua nos canais da parte baixa do corpo, nos sistemas urinário-genital e excretor. Samana Vayu se move na parte central do corpo, regendo o sistema digestivo e a região em volta do umbigo. Abre os canais dos intestinos e órgãos como o fígado e o pâncreas. Vyana Vayu cria os canais que se movem em direção a periferia do corpo, os braços e as pernas. É o que cria as veias as artérias e também os músculos, as articulações e os ossos.
Em suma, Samana Vayu cria o tronco (que domina o trato gastrintestinal), enquanto Vyana Vayu cria os membros. Prana e Apana criam as aberturas ou os orifícios, superiores e inferiores, respectivamente.

Entretanto o prana não existe somente no nível físico. A região do umbigo é o principal centro vital do corpo físico. O coração é o principal centro do Pranamaya Kosha. A cabeça é o principal centro do Manomaya Kosha.

O Prana e a Respiração

Respirar é a principal forma de atividade prânica do corpo. O Prana governa a inalação.Samana governa absorção de oxigênio que ocorre principalmente durante a contenção da respiração. Vyana governa a circulação. Apana governa a exalação e elimina o dióxido de carbono. Udana governa a exalação e libera os efeitos positivos do Prana através da respiração, incluído a fala que ocorre enquanto estamos exalando.

O Prana e a Mente

Também a mente tem sua energia ancorada no Prana. Derivando-se do alimento, da respiração e das impressões externas. O Prana governa a energia que entra através dos sentidos. Samana governa e digestão mental dessa energia. Vyana governa a circulação mental. Apana governa a eliminação de idéias tóxicas e emoções negativas. Udana governa a energia mental positiva, a força e o entusiasmo.

Num nível psicológico, o Prana governa nossa receptividade
para com a fonte positiva que nos nutre, através dos sentimentos e do conhecimento que nos chegam pela mente e pelos sentidos. Quando transtornados, estes sentimentos ou pensamentos causam o desejo equivocado e uma ânsia insaciável por alguma coisa. Nós nos encontramos perdidos, desorientados e geralmente desequilibrados.

Apana, num nível psicológico governa a habilidade de eliminar pensamentos e emoções negativas. Quando em desequilíbrio causa depressão e nos sentimos entupidos por experiências indigestas que nos põe para baixo, nos tornando amedrontados, oprimidos e fracos.

Samana Vayu é o que nos nutre, dando contentamento e equilíbrio mental. Quando em desequilíbrio traz apego e possessividade . Nós nos apegamos ás coisas e nos tornamos possessivos.

Vyana Vayu nos dá liberdade de movimento e independência mental. Quando em desequilíbrio provoca isolamento, ódio e alienação. Nos tornamos incapazes de nos unir aos outros ou de nos mantermos conectados ao que fazemos.

Udana traz satisfação e entusiasmo e auxilia a despertar um potencial mais criativo e espiritual. Quando desequilibrado causa orgulho e arrogância. Nos tornamos instáveis, tentando subir demasiado, perdendo o contato com as raízes.

Aspectos Espirituais do Prana

Todos os Pranas tem muitas ações especiais nas práticas yogis. Num nível espiritual, Samana Vayu governa o espaço dentro do coração (antar hridyakasha) no qual o verdadeiro Self , o Atman reside como uma tocha de cinco flamas, governando o espaço central interno de antariksha. Samana regula o Agni com combustível, que deve se manter queimando uniformemente. Sem a paz e o equilíbrio de Samana não é possível retornar ao centro do ser ou concentrar a mente.

Vyana governa o movimento do Prana através das Nadis, mantendo-as abertas, claras, limpas e em funcionamento equilibrado. Apana nos protege das influências astrais negativas e dos falsos professores. O Prana em si nos dá a inspiração apropriada para alimentar nosso desenvolvimento espiritual.

Udana governa a expansão da consciência e leva a mente a outros estados durante o sono e aos planos da vida após a morte. Udana também governa o movimento da energia para cima na shushumna nadi.

A mente se move com udana Vayu. É o que nos leva aos estados dos sonhos e do sono profundo. Após a morte é o que leva a alma aos planos astral e causal. Udana é freqüentemente o mais importante dos Pranas para o crescimento espiritual.

Ao praticarmos yoga os aspectos sutis do Prana começam a despertar. Isso pode causar vários movimentos energéticos incomuns no corpo e na mente, inclusive a ocorrência de vários movimentos espontâneos ou kriyas. Podemos sentir uma nova expansão de energia (Vyana sutil), grande paz (Samana sutil), uma sensação de leveza ou levitação (Udana sutil), profunda sensação de estabilidade (apana sutil) ou apenas vitalidade incrementada e sensitividade (Prana sutil).

Trabalhando com o Prana

A alimentação apropriada incrementa enormemente o Prana no nível físico. Isso também requer eliminação apropriada. De acordo com o pensamento ayurvêdico o Prana dos alimentos é absorvido no intestino grosso, particularmente na parte superior deste órgão, que não é simplesmente um órgão de eliminação. Por esta razão o Apana Vayu é o mais importante dos Pranas para a saúde física.

Dizem os Vedas que os mortais se alimentam de comida com Apana enquanto os deuses se alimentam de comida com Prana. Os tecidos físicos são mortais. Os sentidos são imortais. O alimento correto é o que sustenta o Apana. Impressões corretas suportam o Prana. Por isso não apenas os fatores externos como o contato com a natureza,mas também as práticas como rituais, visualizações são importantes, assim como terapias sensoriais envolvendo cores, sons e aromas.

Pranayama

A principal maneira de se trabalhar com o Prana é através da prática de pranayama, ou exercícios de respiração yogi. O yoga enfatiza a purificação do corpo (deha suddhi) e a purificação da mente (citta suddhi) como um meio de auto-realização. Por esta razão o Yoga enfatiza a dieta vegetariana rica em Prana ou alimentos cheios de energia vital assim como uma mente enraizada nos valores éticos como verdade (satya) e não- violência (ahimsa). Uma mente impura, intoxicada ou um corpo/mente desequilibrado não pode realizar seu Eu (Self) mais elevado. Portanto a chave para a purificação do corpo e da mente está no Prana. Com esse propósito o principal método de purificação está em "limpar" as nadis ou canais de energia por onde o Prana circula (Nadi-sodhana).

Enquanto todo Pranayama tenha esse efeito, o mais importante é a respiração alternada, que busca equilibrar as correntes direita e esquerda de Prana. De acordo com o sistema yogi o corpo e todos os canais de energia obedecem a uma predominância na circulação de energia pelo lado direito ou esquerdo. O lado direito do corpo é o masculino, a natureza solar. O lado esquerdo é o feminino ou a natureza lunar. A nadi do lado esquerdo ou de natureza lunar é kapha ou predominada pelo elemento água e incrementa a energia do lado esquerdo do corpo. Esta relacionada com atividades como descansar, dormir, relaxar. A nadi direita ou solar é Pitta ou predominada pelo fogo e incrementa a energia do lado direito. Está relacionada a atividades como a digestão, o trabalho e a concentração.

Respiração nasal regular e alternada é o mais importante método para manter o Prana ou energia em equilíbrio. Outro método é unindo o Prana e o Apana. O Apana, que está alinhado com a força da gravidade, normalmente se move para baixo resultando não apenas em doença e morte mas também no movimento da consciência para baixo. O Prana por outro lado tende a se mover para cima através da mente e dos sentidos e é nosso portão de acesso para as energias superiores.

As praticas yogi requerem trazer o apana para cima.O Prana deve ser direcionado para baixo para se unir ao Apana. Isso ajuda e equilibra todos os Pranas. Assim fazendo o fogo interno ou Kundalini se concentra na região do umbigo. Mula Bandha é uma importante prática nesse sentido.

Mantra e Meditação

As práticas respiratórias trabalham com o Pranamaya Kosha. Entretanto o Prana ou energia mental pode atuar da mesma forma. Cor e som (música) são importantes formas de direcionar a energia mental. A melhor técnica nesse sentido é o mantra, particularmente sílabas únicas, ou bija mantras como o OM, que criam vibrações (Nada) que podem auxiliar a endereçar a energia diretamente para o subconsciente.

A meditação em si cria espaço na mente, serve para trazer mais Prana para a mente. Com a mente é induzida a um estado de silêncio e receptividade,como a expansão do céu, uma energia nova se apossa do ser interior, capaz de operar grandes transformações.

Na verdade todos os caminhos do yoga são baseados no Prana. Bhakti Yoga ou o yoga da devoção traz transformações prânicas através da união com o Divino Ser e o Divino Prana. Todo o Karma Yoga ou serviço, se baseia no alinhamento com a vontade do Divino Ser também. Isso também nos provê com mais Prana, não apenas para agir externamente mas para nos desenvolvermos internamente.

O Yoga Clássico ou Raja Yoga se baseia no controle da atividades mentais (Citta-vrittis). A vibração da mente (Citta-spanda) segue a vibração do Prana (Prana-spanda). Portanto Pranayama ajuda a controlar a mente. Também ajuda a controlar os sentidos (Pratyahara) pois recolhe nossa consciência retraindo os sentidos. O próprio Hatha-Yoga está principalmente preocupada com o Prana, e mesmo os Asanas ocorrem como uma manifestação do Prana. Muitos grandes yogis não aprendem asanas através de praticas mecânicas mas são ensinados através do poder de seu Prana desperto.

Até mesmo Jnana Yoga ou Yoga do conhecimento depende de um forte desejo e concentração. Sem um bem desenvolvido Udana Vayu não é possível ser bem sucedido. No yoga do conhecimento o Prana do questionamento deve ser criado, o que significa questionar nossa própria natureza não apenas mentalmente mas em todas as nossas atividades diárias. Isto requer que essa inquisição ocorra através do Prana e não simplesmente através da mente superficial externa.

Realmente, como diz nos Vedas, estamos todos sob o controle do Prana. O Prana é definido como o Sol que distribui vida e luz à todos e penetra no coração e no ser (Self) de todas as criaturas. O Prana nos dá a vida e nos permite agir. Não é o medíocre e pequeno ego, atribuindo a si mesmo os efeitos do Prana, que realmente faz alguma coisa. Nós precisamos aprender a nos abrir e dar as boas vindas a grande força do Prana e buscar trazer essa energia para nossas vidas e ações. Este é um dos grandes segredos do Yoga.


 

O Yoga é uma Religião?

Phil Catalfo / Yoga Journal abril 2001

Na cerimônia de encerramento da conferência “Yoga no Século XXI” em setembro de 2000 em Nova York, T.K.V Desikachar nos ofertou com alguns pensamentos e comentários instigantes sobre a relação entre hatha yoga e religião: “o yoga foi rejeitado pelo hinduismo porque não insiste na existência de Deus”, disse ele. O yoga não dizia que Deus não existe, mas simplesmente não insistia na sua existência. E esta, ele acrescentou era uma lição importante para os yogis: “ yoga não deve ser associado a nenhuma religião”

Alguém poderia facilmente acrescentar a essa afirmação de Desikachar: o yoga não tem um credo único, não tem também nenhum ritual sob o qual seus seguidores professem sua fé ou lealdade, assim como o batismo ou a confirmação. Não existem obrigações religiosas como freqüentar serviços semanais, receber sacramentos, jejuar em dias específicos ou fazer peregrinações devocionais.

Por outro lado existem antigos textos yogis (mais notavelmente o Yoga Sutra de Patanjali) ao qual muitos se referem como escrituras, revelações da verdade e sabedoria que servem como guia de vida para os yogis ao longo das eras. Os Yamas e Nyamas, elaborado código moral que está inserido nessa obra, é amplamente divulgado e promulgado, embora nem sempre muito bem compreendido. Da mesma forma, enquanto existem significantes variações na forma como o hatha yoga é ensinado, questões surgem sobre o que é e o que não é uma postura de yoga. Muitos yogis provavelmente poderiam lhe dizer que reconhecem uma postura quando a vêem, levando alguém a sugerir que as várias escolas de hatha yoga podem ser consideradas segmentos de uma quase “religião”. Ainda assim muitos desaprovam o termo religião ao se referir ao yoga.

Isto pede uma pergunta: se o hatha yoga não é uma religião, então o que é? É um hobby, fitness, um esporte, uma atividade recreacional? Ou uma disciplina como o estudo de Direito ou Medicina? A estranha verdade é que de certa forma a prática de yoga contem todas essas atividades ou características ao mesmo tempo.

Talvez fosse de grande ajuda considerar aqui a diferença entra a palavra religião e uma outra palavra freqüentemente associada a ela, a palavra espiritualidade. Espiritualidade poderia se dizer, diz respeito à vida interior, a sempre evolutiva compreensão do próprio self e o seu lugar no cosmos – aquilo que Viktor Frankl chamou de “a humana busca por sentido”. A religião por outro lado pode ser vista como a contraparte externa, a estrutura organizacional que damos a este processo espiritual individual e coletivo: o ritual, a doutrina, a prece, o cântico, as cerimônias e a congregação que se une para compartilhar essas vivências.

O fato de que tantos yogis relatam experiências espirituais em suas práticas indicam como podemos melhor compreender essa antiga arte. Enquanto muitos ocidentais procuram o yoga por seus benefícios para a saúde, é seguro dizer que muitos dos que se abrem ao yoga, irão com o tempo encontrar suas qualidades meditativas e efeitos mais sutis sobre a mente e as emoções, igualmente (se não mais) benéficos à saúde do praticante. Irão em outras palavras ver o yoga como uma prática espiritual. Porém sem credos ou congregações, não pode o yoga ser definido como uma religião, a não ser que se diga que cada yogi ou yogini compreende uma religião em si mesmo.

 

 

Ashtanga Vinyasa Yoga

As séries do Ashtanga Vinyasa Yoga tem o propósito de direcionar o prana (força vital) para cima à partir do muladhára chakra, onde se encontra em forma de energia potencial kundalini shaktí, direcionando-a através do sushumna nadí até o sahásrara chakra, produzindo mudanças radicais e expandindo a consciência, que culmina com a meditação chamada samadhi, isto é um estado e não o que você pode alcançar em termos físicos, esta é a meta do Ashtanga.

O Ashtanga Vinyasa Yoga envolve a sincronia entre respiração e sequências de posições (asanas). Produz um intenso calor corporal, purificando e desintoxicando orgãos internos e músculos através da transpiração. Gerando uma profunda melhora na circulação, um corpo forte e uma mente clara e atenta.

Iniciamos a prática saudando o sábio Patanjali que escreveu o tratado de yoga (Yoga Sutra) e através dele nos ensina o Ashtanga Yoga, o Yoga de oito membros ou partes: yama, niyama, ásana, pránáyama, pratyahara, dhárana, dhyana, samádhi. Isto nos lembra que a prática que faremos em seguida também é sagrada, é uma oferenda, uma disciplina que vai trabalhar o nosso ser em todos os seus aspectos.

Cada série abre um aspecto particular do corpo e da mente, a primeira série chama-se yoga chikitsa ou yogaterapia que purifica principalmente o corpo físico e a espinha. Também constrói fundações, trazendo força física considerável e maior equilíbrio aos praticantes que são extremamente flexíveis. Unindo flexibilidade e força, firmeza e relaxamento, discernimento e aceitação em busca de equilíbrio.

Vistas como um todo diz-se que as séries tem o propósito de direcionar o prana para cima através do sushumna nadí até o sahásrara chakra, onde produz mudanças radicais na consciência, que culmina com a meditação estática chamada samadhi, isto é um estado e não o que você pode alcançar em termos físicos, esta é a meta do Ashtanga.

Vinyása significa respiração sincronizada ao movimento, a respiração é o coração deste método, conecta ásana à ásana em uma ordem precisa.Esta sincronia associa-se também a bandhas (fechos de energia), são usados durante toda a série o mula e uddiyana bandha, são o fecho dos esfíncteres e baixo ventre, os quais encerram a energia dentro do corpo, não permitindo que ela escape, geram leveza, força e saúde, e ajudam a construir um forte fogo interno. Sem os bandhas, a respiração não estará correta, e os asanas não criarão nenhum benefício. Quando o mula bandha é perfeito, o controle da mente é automático.

Os bandhas agem em conjunto comm a respiração ujjayi que também gera calor, este calor purifica órgãos e músculos, expelindo toxinas idesejáveis, liberando hormônios e minerais que nutrem o corpo quando o suor é esfregado de volta na pele. A respiração regula o vinyasa e assegura a circulação eficiente do sangue.

Respirando e movimentando-se enquanto se executa os asanas eleva-se a temperatura do sangue, ou como diz Pattabhi Jois, ferve o sange. O sangue grosso é sujo e causa doenças no corpo. O calor gerado pela prática de yoga limpa o sangue e o torna mais fino, para que assim possa circular mais livremente. A combinação dos asanas com movimento e respiração faz com que o sangue circule livremente pelas juntas, dissipando as dores do corpo. Quando ocorre má circulação, a dor aparece. O sangue mais quente também passa por todos orgãos internos, removendo impurezas e doenças, que são trazidas para fora do corpo pelo suor que ocorre durante a prática.