O Yoga é uma Religião?

Phil Catalfo / Yoga Journal abril 2001

Na cerimônia de encerramento da conferência “Yoga no Século XXI” em setembro de 2000 em Nova York, T.K.V Desikachar nos ofertou com alguns pensamentos e comentários instigantes sobre a relação entre hatha yoga e religião: “o yoga foi rejeitado pelo hinduismo porque não insiste na existência de Deus”, disse ele. O yoga não dizia que Deus não existe, mas simplesmente não insistia na sua existência. E esta, ele acrescentou era uma lição importante para os yogis: “ yoga não deve ser associado a nenhuma religião”

Alguém poderia facilmente acrescentar a essa afirmação de Desikachar: o yoga não tem um credo único, não tem também nenhum ritual sob o qual seus seguidores professem sua fé ou lealdade, assim como o batismo ou a confirmação. Não existem obrigações religiosas como freqüentar serviços semanais, receber sacramentos, jejuar em dias específicos ou fazer peregrinações devocionais.

Por outro lado existem antigos textos yogis (mais notavelmente o Yoga Sutra de Patanjali) ao qual muitos se referem como escrituras, revelações da verdade e sabedoria que servem como guia de vida para os yogis ao longo das eras. Os Yamas e Nyamas, elaborado código moral que está inserido nessa obra, é amplamente divulgado e promulgado, embora nem sempre muito bem compreendido. Da mesma forma, enquanto existem significantes variações na forma como o hatha yoga é ensinado, questões surgem sobre o que é e o que não é uma postura de yoga. Muitos yogis provavelmente poderiam lhe dizer que reconhecem uma postura quando a vêem, levando alguém a sugerir que as várias escolas de hatha yoga podem ser consideradas segmentos de uma quase “religião”. Ainda assim muitos desaprovam o termo religião ao se referir ao yoga.

Isto pede uma pergunta: se o hatha yoga não é uma religião, então o que é? É um hobby, fitness, um esporte, uma atividade recreacional? Ou uma disciplina como o estudo de Direito ou Medicina? A estranha verdade é que de certa forma a prática de yoga contem todas essas atividades ou características ao mesmo tempo.

Talvez fosse de grande ajuda considerar aqui a diferença entra a palavra religião e uma outra palavra freqüentemente associada a ela, a palavra espiritualidade. Espiritualidade poderia se dizer, diz respeito à vida interior, a sempre evolutiva compreensão do próprio self e o seu lugar no cosmos – aquilo que Viktor Frankl chamou de “a humana busca por sentido”. A religião por outro lado pode ser vista como a contraparte externa, a estrutura organizacional que damos a este processo espiritual individual e coletivo: o ritual, a doutrina, a prece, o cântico, as cerimônias e a congregação que se une para compartilhar essas vivências.

O fato de que tantos yogis relatam experiências espirituais em suas práticas indicam como podemos melhor compreender essa antiga arte. Enquanto muitos ocidentais procuram o yoga por seus benefícios para a saúde, é seguro dizer que muitos dos que se abrem ao yoga, irão com o tempo encontrar suas qualidades meditativas e efeitos mais sutis sobre a mente e as emoções, igualmente (se não mais) benéficos à saúde do praticante. Irão em outras palavras ver o yoga como uma prática espiritual. Porém sem credos ou congregações, não pode o yoga ser definido como uma religião, a não ser que se diga que cada yogi ou yogini compreende uma religião em si mesmo.